PINTURA, SÓ PINTURA

 

A função deste texto não é fazer apologia da pintura de CARLA PETRINI. Muito menos interpretar, traduzir, servir de ponte entre a pintura e o espectador. Não vou dizer também que CARLA PETRINI é uma jovem promissora.

Tão pouco que é um talento em potencial. Tudo isso é óbvio. Sua pintura o diz.

 

Toda vez que leio um texto de louvação pura e simples, marcado por clichês, lugares comuns, me sinto lesado. Isso porque a obra através do elogio rasgado, do “texto brilhante”, das firulas poéticas, fica à margem. No que tange à interpretação da obra, acredito que interpretá-la é uma forma de minimizá-la, limitá-la à visão de quem a interpretou. Portanto, longe de mim tal intenção. As aquarelas e os óleos de CARLA PETRINI estão à sua frente. Procure vê-los, senti-los no que eles são: pinturas.

Esqueça todas as outras já vistas e prepare-se para fruir as aquarelas e os óleos que Carla pintou.

Lembre-se que para isso é preciso liberar sua acuidade sensorial do excesso de imagens diariamente assimiladas.

 

O bombardeio a que somos submetidos reduz nossa capacidade de ver, ouvir, sentir, limitando-a a padrões convencionais. Sem que percebamos nossos sentidos embotam, nossa capacidade sensorial estiola-se.

Não deixe que isso aconteça quando você estiver curtindo a pintura de Carla.

Um dos papas do Nouveau Roman francês, o escritor Robbe-Grillet, referindo-se à obra de arte, de modo curto e rápido, abordou a questão da seguinte maneira: “Se podemos dizer que a arte é alguma coisa ela é tudo: e nesse caso deve ser auto-suficiente e não pode haver nada além dela.”

 

Isso significa nada mais nada menos que a arte é absoluta.

A arte é! Dispensa tudo mais. Até este texto. Lê-lo poderá ajudar a refletir sobre a pintura de Carla, perceber que entre as técnicas da aquarela e do óleo há um mundo de diferenças e semelhanças.

Que os “approachs” de Carla com relação ao papel, à aquarela, não são os mesmos com relação à tela e ao óleo.

Sentir que a emoção que guiou o pincel na aquarela não é a mesma que direcionou no óleo. Descobrir que para a artista a natureza não é apenas paisagem, mas catalisador da sua sensibilidade. Fonte permanente de estímulos, impulsos, emoções. Pretexto, não modelo. Reconhecer nas cores um amarelo que você já viu em Van Gogh, um azul em Matisse, um vermelho em Picasso, e entre as cores que lembram esses ilustres senhores, as cores de Carla. Cores que se sobrepõem, camada sobre camada, múltiplos arco-íris

harmônicos. Encontrar nos céus nada bucólicos inquietação que nos remetem a Blake. 

E já que falamos de céus, descobrir que a terra pouco interessa a Carla. Basta olhar a composição da sua pintura para perceber.

 

Acredito que o prazer estético que suas pinturas provocam conduzem ao hedonismo. Porém, tenho certeza que após o deleite puro e simples, a reflexão se impõe. É quando a obra começa a explicitar algo que CARLA PETRINI captou, fruiu,  transformou em pintura. Alinhavar frases de efeito sobre essa pintura, tecer comentários poéticos  a respeito, é tentação que os mais afoitos não resistem, mas esses floreios literários estão totalmente alheios à essência mesma dessas aquarelas e óleos.

 

Por mais démodée que possa parecer, não resisto trazer ‘a baila Platão e Aristóteles. Em plena era atômica, em tempos em que o homem ultrapassa a velocidade do som, falar em Platão, Aristóteles, poderá parecer antiquado, anacrônico, mas não tenho duvida de que não é. Seria “moderno” citar Panofsky, ou Braudillard.

Prefiro os gregos.

 

De um lado Platão acena com a mimese, ou seja, arte imitação da realidade, e sendo imitação, inútil.

Do outro, Aristóteles aceita com restrição a colocação de Platão e acrescenta a catarse, processo através do qual o artista libera seus anjos e demônios.

 

E o que a pintura de CARLA tem a ver com as teorias desses dois filósofos? Muito! Ao pintar Carla não pretende reproduzir a natureza, imitando-a. A paisagem é apenas referencia. Ponto de partida, nunca de chegada. Fotografá-la, desenhá-la, captá-la no momento de emoção, é essencial. Reproduzi-la, não.

 

Apreender a grandiosidade de um amanhecer, as variações de luz e cor de um por do sol, a chuva a chover em um pedaço da paisagem, faz parte de um processo antimimético por excelência. Muito mais próxima de Aristóteles, Carla reformula, recria, recicla a referência transformando-a a seu bel prazer em algo que lhe é próprio e somente a ela, artista, diz respeito. Essa coisa pessoal é o seu jeito, o seu estilo. Essa individualidade é que é responsável pelo diálogo que deve se estabelecer entre a artista, via obra, e o espectador. Quanto maior o diálogo, maior a comunicação. Maior o “feed back”.

Ao iniciar este texto disse que não pretendia interpretar a pintura de CARLA PETRINI. Suscitar reflexões sobre, sim.

Observe-a, procure estabelecer o diálogo. Sinta o que essa pintura diz, comunica. Não procure “entender” porque não há nada a “explicar”. Procure apenas sentir. Sem esquecer que uma obra de arte é auto suficiente. Nada mais.

 

Carlos von Schmidt

São Paulo, 1988

 

 

 

(Texto de apresentação da exposição individual “A céu aberto”, realizada na Galeria SESC Paulista, SP, em 1988 – Aquarelas e óleos) 

A céu aberto 14
A céu aberto
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